2xMallarmé
Sincronicidades
Dois anos labutei na tradução de Rabiscado no teatro. Quando o livro finalmente saiu, cisquei no Google pra ver onde aparecia. Acabei descobrindo, numa revista eletrônica da UFSC, Mafuá, uma tradução, feita por Fernando Scheibe, de uma das crônicas do Rabiscado, “Outro estudo de dança”. Pra encurtar a história, entrei em contato com o Fernando e fiquei sabendo que ele traduzira integralmente o Divagações do Mallarmé, com publicação próxima pela Editora da UFSC (outra notícia aqui).
Foi uma grande emoção, após esses dois anos de trabalho solitário, saber que, no mesmo período, uma alma gêmea (pardon) se debruçava sobre as mesmas dificuldades. No troca-troca das mensagens, deu pra perceber que, excetuando-se as diferenças evidentes (ele traduziu todo o Divagações, eu, apenas uma das seções; eu publiquei as minhas notas de leitura, ele, não), tínhamos ido na mesma direção e o resultado (na parte coincidente, i. e, no “Rabiscado”) estava muito próximo.
E a coincidência! Paul Auster, que as adora, teria ficado feliz. Acho que Virginia também.
E um círculo acabou se fechando. Pois pouco mais de uma semana após o início dessa troca de mensagens com Fernando, recebo, por Sedex, um exemplar de Hipólito e Fedra. Três tragédias, na tradução de Joaquim Brasil Fontes, enviado pelo próprio. É que Fernando me contara que a tradução de Divagações tinha sido feita sob a orientação de Joaquim, durante seu pós-doutorado na Unicamp. E eu dissera a Fernando que gostava muito dos trabalhos do Joaquim. Foi o que bastou para que eu fosse agraciado com o gentil e generoso mimo.
Malarmado
Estevão Malarmado vai ao teatro. Ele não gosta muito. Prefere ficar em casa. Mais ainda na sua casa de campo, em Valvins, à margem do Sena. Praticando canoagem. Ou ao pé da lareira, na delícia da leitura. Ou na moleza de uma siesta, em tardes preguiçosas. Melhor ainda: ver o sol se pondo, por entre as árvores da floresta de Fontainebleau. O seu amado drama solar. Desde sempre. A angústia e a esperança. O fim do mundo e o começo da vida. A pulsação vital.
A contragosto. Mas vai. Ainda mais agora. Travestido de crítico teatral. Para satisfazer o amigo Eduardo Dojardim. Advertiu, porém. Só vai quando lhe der na telha. E pode nem escrever sobre a peça em questão. Reserva-se o direito de falar sobre não importa o quê. Ou sobre nada. Vai e rabisca. Ou não vai. E rabisca.
Nem tudo lhe desagrada. Hamlet, sobretudo. Pelo personagem, quase só. Que nem sabe quem é. Nem sequer se é. Uma coisa é certa: Malarmado é Hamlet. Unha e carne os dois.
Delira com os jogos de luzes e as ondulações dos imensos panos da gringa que dança. E o balé? A escrita suprema. A forma pura. Livre do demônio da significância. Também livra a cara da pantomima. O silêncio do mímico e sua cara de giz: uma página em branco. Como as do poeta, como as suas. Do resto pouco se salva.
Mas o teatro era mesmo só um pretexto. Pra falar do que lhe é mais caro. De poesia e literatura. De escrita e de leitura. Do seu “teatro íntimo” – o da mente. Do que pensa sobre arte e estética. É o que exala dessas crônicas malarmadas. Rabisca, rabisca, Estevão. Nós te deciframos. Nós te devoramos.
[Da orelha de Rabiscado no teatro, já nas livrarias.]
Rabiscado no teatro
Acabo de receber meus exemplares. A edição é um luxo. A emoção é grande, após dois anos de trabalho. Abro e abano meu leque. Para Rejane, pela receptividade e generosidade de sempre. Para Diogo, pelo mimo da capa. Para Waldênia, pela paciência com minhas correções de última hora. Para toda a equipe da Autêntica, minha casa.
Os últimos dias de Immanuel Kant
Dupla estranha, essa: o filósofo transcendental e o comedor de ópio. Um: a mente controla o corpo. O outro: o corpo é seu próprio dono. A vida de um: metódica, regrada, invariável. A do outro: errática, atormentada, aventurosa. O de saúde inabalável e o doente crônico. O da lúcida mente e o do demente corpo. O cara da filosofia e o cara da fisiologia.
Quase nada, nesse relato “psicografrado” por De Quincey, deixa entrever esse “conflito de faculdades”, ou melhor, de estilos de pensamento e vida. Aqui e ali, pode-se entrever um certo risinho irônico do cavalheiro inglês nessa tradução turbinada do memorial admirativo de um discípulo do cavalheiro alemão.
Como nessa receita para os males digestivos do transcendendalista: “um quarto de um grão de ópio, a cada oito horas, teria sido o melhor remédio, talvez um remédio perfeito.” Na mosca: a cura do corpo pelo corpo. Santo remédio! Mas que cada filósofo tome a droga que merece. Ou que melhor lhe apeteça.
O santo homem, entretanto, como mostra a hagiografia de Wasianski transubstanciada por De Quincey, tinha lá os seus prazeres. O café e o tabaco; a boa mesa e a boa companhia; um traguinho: não vai mal. Claro, tudo na hora certa e na devida ordem, que ninguém é de ferro.
É triste, sem dúvida, acompanhar a descrição do declínio das capacidades físicas e, sobretudo, das mentais de um homem cuja vida esteve centrada no pensamento e no pensar sobre o pensamento. Se há algum consolo é que isso dá o que pensar. Sobre as complexas relações entre o corpo vil e o nobre espírito. Ainda mais quando a matéria se expressa numa prosa viva e insinuante como a de Thomas de Quincey.
An odd couple? Sim. Não. Talvez.
[Orelha para a minha tradução de "Os últimos dias de Immanuel Kant", de Thomas de Quincey, futuramente nas boas casas do ramo].
Mrs. Dalloway
A Senhora Dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores.
Pois Lucy já tinha muito o que fazer. As portas seriam removidas; os homens da [confeitaria] Rumpelmayer estavam chegando. E depois, pensou Clarissa Dalloway, que manhã!, fresca como se dada de presente a crianças numa praia.
Que diversão! Que mergulho! Pois era isso o que sempre sentia, em Bourton, quando, com um leve ranger das dobradiças, que ainda agora podia ouvir, abria de uma só vez as portas envidraçadas da sacada e se via engolfada pelo ar de fora. Que fresco, que calmo, mais parado que o de agora, obviamente, era o ar no começo da manhã; como o lambido de uma onda, o beijo de uma onda; gélido e cortante e, contudo (para uma garota de dezoito anos que era o que ela tinha então), solene, sentindo, como sentia, ali parada diante da porta aberta, que algo terrível estava para acontecer; olhando as flores, as árvores com a névoa que delas se desprendia e as gralhas subindo, descendo; parada e olhando até que Peter Walsh lhe dissesse: “sonhando no meio dos vegetais?” – fora isso? – “prefiro homens a couves-flores” – fora isso? Deve ter dito isso durante o café da manhã num dia em que tinha ido até à sacada – Peter Walsh. Estaria de volta da Índia um dia desses, em junho ou julho, esquecera o mês, pois suas cartas eram terrivelmente sem graça; eram as frases que ele falava que a gente lembrava; os olhos, o canivete, o sorriso, a rabugice e, como isso era estranho!, quando milhões de outras coisas tivessem inteiramente se apagado, umas poucas frases, como essa sobre couves.
Encolheu-se um pouco sobre o cordão da calçada, esperando que a camionete [de mudanças] da Durtnall passasse. Uma mulher encantadora, foi o que Scrope Purvis pensou que ela era (conhecendo-a do jeito que se conhece uma pessoa que mora ao lado, em Westminster); um quê de pássaro era o que ela tinha, do gaio, colorida, ágil, vivaz, embora passasse dos cinquenta e tivesse se tornado muito pálida desde que ficara doente. Ficou ali empoleirada, sem, em momento algum, tê-lo percebido, esperando, muito empertigada, para atravessar a rua.
Por ter morado em Westminster – por quanto tempo agora?, por mais de vinte anos, – a gente sente, Clarissa não tinha dúvida, até no meio do trânsito, ou acordando à noite, uma calma ou uma solenidade diferente; uma pausa indescritível; uma suspensão (mas podia ser por causa do coração dela, afetado, dizem, pela gripe) momentos antes de soar o Big Ben. Agora! Ressoou. Primeiro um aviso, musical; depois a hora, irrevogável. Os círculos de chumbo dissolveram-se no ar. Que tolos somos, pensou, cruzando a Victoria Street. Pois só os céus sabem por que a amamos assim, como a vemos assim, inventando-a, construindo-a à nossa volta, colocando-a abaixo, erguendo-a novamente a cada instante; mas as mais esfarrapadas das esfarrapadas, as mais decaídas das infelizes que se sentam nos degraus de entrada das casas (a bebida, a sua ruína) sentem a mesma coisa; não é algo que possa ser administrado, estava certa disso, por atos legislativos, por esta exata razão: elas amam a vida. Nos olhares das pessoas, no seu andar apressado, pesado, arrastado; na gritaria e na balbúrdia; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nas camionetes, nos homens-sanduíche se arrastando e balançando; nas fanfarras; nos realejos; na passagem triunfal e no zumbido e no estranho silvo de algum aeroplano no céu estava o que ela amava; a vida; Londres; este momento de junho.



