Estevão Malarmado vai ao teatro. Ele não gosta muito. Prefere ficar em casa. Mais ainda na sua casa de campo, em Valvins, à margem do Sena. Praticando canoagem. Ou ao pé da lareira, na delícia da leitura. Ou na moleza de uma siesta, em tardes preguiçosas. Melhor ainda: ver o sol se pondo, por entre as árvores da floresta de Fontainebleau. O seu amado drama solar. Desde sempre. A angústia e a esperança. O fim do mundo e o começo da vida. A pulsação vital.
A contragosto. Mas vai. Ainda mais agora. Travestido de crítico teatral. Para satisfazer o amigo Eduardo Dojardim. Advertiu, porém. Só vai quando lhe der na telha. E pode nem escrever sobre a peça em questão. Reserva-se o direito de falar sobre não importa o quê. Ou sobre nada. Vai e rabisca. Ou não vai. E rabisca.
Nem tudo lhe desagrada. Hamlet, sobretudo. Pelo personagem, quase só. Que nem sabe quem é. Nem sequer se é. Uma coisa é certa: Malarmado é Hamlet. Unha e carne os dois.
Delira com os jogos de luzes e as ondulações dos imensos panos da gringa que dança. E o balé? A escrita suprema. A forma pura. Livre do demônio da significância. Também livra a cara da pantomima. O silêncio do mímico e sua cara de giz: uma página em branco. Como as do poeta, como as suas. Do resto pouco se salva.
Mas o teatro era mesmo só um pretexto. Pra falar do que lhe é mais caro. De poesia e literatura. De escrita e de leitura. Do seu “teatro íntimo” – o da mente. Do que pensa sobre arte e estética. É o que exala dessas crônicas malarmadas. Rabisca, rabisca, Estevão. Nós te deciframos. Nós te devoramos.
[Orelha do livro de Mallarmé, Rabiscado no teatro, a sair, em breve, pela Autêntica].

08/03/2010
O que não tenho pra dizer não sei como dizê-lo. Por isso vou aos trancos. Pra frente muito pouco pra trás quase sempre. Empaco. Se pareço andar é porque me empurram. Tem a ver com esta posição aqui. Do púlpito. Um pregador.
[1]
É forçosamente uma posição de autoridade. Supõe que sei algo e que devo mostrar sabê-lo. Devo ser assertivo, impositivo. Não posso hesitar, parar para pensar, dar mostras de que posso ter dúvidas. Aqui, uma pausa mais prolongada causaria mal-estar. Seria uma mostra de fraqueza. De pouco saber. E, no entanto, não posso fugir disso. Até mesmo quando tento desfazer esta posição, é com autoridade que o faço. Se cheguei até aqui, se aceitei vir até aqui, sou, de algum modo, cúmplice desta investidura. Ao consentir, enquadrei-me. Sou suspeito, gostaria que soubessem.
[2]
Avanço, pois, com cautela. Esforço-me por evitar o enunciado peremptório. Os imperativos, ainda que disfarçados de infinitivos, a indicar leis e decretos. Os artigos definidos a marcar a exclusividade e a totalização. As partículas que regem o absoluto: nunca, sempre, nada, tudo, todo mundo. Os verbos prescritivos que restringem as escolhas e fundam uma moral: deve-se, é preciso, é necessário. As generalizações. As afirmações grandiosas. As convocações e as convocatórias. Os sermões e as sentenças. As interdições e as permissões. Os gestos apocalípticos e as profecias milenaristas. A denúncia e a salvação. O que pode e o que não pode. Conseguirei?
[3]
Sou tomado de pânico. Espera-se que eu diga algo porque se espera que eu tenha algo a dizer. E se eu não tiver nada a dizer? Pelo menos, nada de muito importante. Nem, muito menos, nada de certo ou verdadeiro. Para se ter algo a dizer é preciso acreditar em algo. E estar convicto. Ou, pelo menos, aparentar tudo isso. Aí já posso começar a pregar. Ou a ensinar. E a juntar fiéis. Ou discípulos. Já posso fundar uma igreja. Ou uma escola. Alguém aí?
[4]
Deveria, por ofício, por motivo do convite, falar de pedagogia, de currículo, de educação. Falar de teorias, citar pensadores, criticar o estado das coisas. Depois, como convém, propor alguma solução, indicar uma saída, traçar um programa. E terminar com umas palavras edificantes, apelar para a emoção, proporcionar algum conforto. Não estaria senão sendo fiel ao roteiro de um gênero discursivo pisado e repisado.
[5]
Antigo praticante do gênero, ele agora me desgosta. Será porque falta-lhe estilo? Ouço a mesma e antiga ladainha. Os fiéis ali em piedosa repetição.
[6]
E o templo abarrotado de pregadores. Que sabem o que vai mal no mundo. Que querem melhorar o mundo. Que sabem como. Digo isso só piora. Mas os pregadores aos berros. Tapo os ouvidos. Todo curriculista é um moralista. Fui um deles. Ainda sou. Se me descuido.
[7]
Agora mal tenho convicções. Já tive tantas. Nem contradições. Ou provocações. Não afirmo nada. Não nego nada.
[8]
Da liga me desliguem. Do credo me desobriguem. Reuniões de fundação? Que cansaço. Assembléias de dissolução? Que perda de tempo. Direitos não reivindico. Das obrigações só peço que me livrem.
[9]
Eu avisei. Não tinha nada pra dizer. Nem como. Se por engano ou imprudência ou atropelo disse algo agora apago. Se houve alguém a dizê-lo que se cale. Nem vale a pena chamarem os padioleiros.

21/02/2010
A senhora Dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores.
Pois Lucy já tinha muito o que fazer. As portas seriam removidas; os homens da Confeitaria Rumpelmayer estavam chegando. E depois, pensou Clarissa Dalloway, que manhã!, fresca como se feita para crianças numa praia.
Que diversão! Que mergulho! Pois era isso o que sempre sentia, em Bourton, quando, com um leve ranger das dobradiças, que ainda agora podia ouvir, abria de uma só vez as portas envidraçadas da sacada e se via engolfada pelo ar de fora. Que fresco, que calmo, mais parado que o de agora, claro, era o ar no começo da manhã; como o lambido de uma onda, o beijo de uma onda; gélido e cortante e, contudo (para uma garota de dezoito anos que era o que ela tinha então), solene, sentindo, como sentia, ali parada diante da porta aberta, que algo terrível estava para acontecer; olhando as flores, as árvores com a névoa que delas se desprendia e as gralhas subindo, descendo; parada e olhando até que Peter Walsh lhe dissesse: “sonhando no meio dos vegetais?” – fora isso? – “prefiro homens a couves-flores” – fora isso? Deve ter dito isso durante o café da manhã num dia em que tinha ido até à sacada – Peter Walsh. Estaria de volta da Índia um dia desses, em junho ou julho, esquecera o mês, pois suas cartas eram terrivelmente sem graça; eram as frases que ele falava que a gente lembrava; os olhos, o canivete, o sorriso, a rabugice e, como isso era estranho!, quando milhões de outras coisas tivessem inteiramente se apagado, umas poucas frases, como essa sobre couves.
Encolheu-se um pouco sobre o cordão da calçada, esperando que a camionete de mudanças da Durtnall passasse. Uma mulher encantadora, foi o que Scrope Purvis pensou que ela era (conhecendo-a do jeito que se conhece uma pessoa que mora ao lado, em Westminster); um quê de pássaro era o que ela tinha, do gaio, colorida, ágil, vivaz, embora passasse dos cinquenta e tivesse se tornado muito pálida desde que ficara doente. Ficou ali empoleirada, sem, em momento algum, tê-lo percebido, esperando, muito empertigada, para atravessar a rua.
Por ter morado em Westminster – por quanto tempo agora?, por mais de vinte anos, – a gente sente, Clarissa não tinha dúvida, até no meio do trânsito, ou acordando à noite, uma calma ou uma solenidade diferente; uma pausa indescritível; uma suspensão (mas podia ser por causa do coração dela, afetado, dizem, pela gripe) momentos antes de soar o Big Ben. Agora! Retumbou. Primeiro um aviso, musical; depois a hora, irrevogável. Os círculos de chumbo dissolveram-se no ar. Que tolos somos, pensou, cruzando a Victoria Street. Pois só os céus sabem por que a amamos assim, como a vemos assim, inventando-a, erguendo-a à nossa volta, colocando-a abaixo, erguendo-a novamente a cada instante; mas as mais esfarrapadas das esfarrapadas, as mais decaídas das infelizes que se sentam nos degraus de entrada das casas (a bebida, a sua ruína) sentem a mesma coisa; não é algo que possa ser administrado, estava certa disso, por atos legislativos, por esta exata razão: elas amam a vida. Nos olhares das pessoas, no seu andar apressado, pesado, arrastado; na gritaria e na balbúrdia; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nas camionetes, nos homens-sanduíche se arrastando e balançando; nas fanfarras; nos realejos; na passagem triunfal e no zumbido e no estranho silvo de algum aeroplano no céu estava o que ela amava; a vida; Londres; este momento de junho.
Pois era a metade de junho. A Guerra tinha chegado ao fim, exceto para alguém como a Senhora Foxcroft, morta de desgosto, na noite passada, na Embaixada, porque aquele garoto maravilhoso tinha sido morto e agora a velha mansão senhorial ia ficar para um primo; ou Lady Bexborough que iniciara uma quermesse beneficente, disseram, o telegrama na mão, John, seu preferido, morto; mas tinha chegado ao fim; graças a Deus – ao fim. Era junho. O Rei e a Rainha estavam no Palácio. E por toda parte, embora fosse ainda tão cedo, havia uma pulsação, uma agitação de pôneis a galope, um entrechoque de tacos de críquete; Lords, Ascot, Ranelagh, e todos os outros, envolvidos na malha fofa do ar cinza-azulado da manhã, que, à medida que o dia avançasse, iria descobri-los, e acomodar nos seus gramados e pistas os saltitantes pôneis, cujas patas dianteiras mal tocavam o chão e logo voltavam ao ar, os agitados garotos, e as ruidosas garotas em suas musselinas transparentes, as quais, mesmo agora, após terem dançado a noite toda, estavam levando seus absurdos e peludos cachorros para um passeio; e mesmo agora, nesta hora, discretas e idosas viúvas estavam saindo em seus automóveis em passeios de mistério; e os lojistas estavam remexendo em suas vitrines com seus diamantes e pedras de imitação, seus adoráveis broches verde-mar exibidos em panos-de-fundo do século XVIII para atrair americanos (mas é preciso economizar, não comprar precipitadamente coisas para Elizabeth), e também ela, gostando disso como gostava, com uma absurda e fiel paixão, sendo parte disso, pois as pessoas de sua família tinham uma vez, no tempo dos Georges, feito parte da corte, também ela, ia, naquela mesma noite, brilhar e iluminar; ia dar a sua festa. Mas que estranho, ao entrar no parque, o silêncio; a névoa; o zumbido; os alegres patos nadando lentamente; as aves de papo bamboleando; e quem vinha vindo com suas costas viradas para os edifícios do Governo, da maneira mais apropriada, carregando uma mala diplomática ornada com as armas reais, quem, senão Hugh Whitbread; seu velho amigo Hugh – o admirável Hugh!
“Desejo-lhe um bom dia, Clarissa!”, disse Hugo, um tanto exuberantemente, pois se conheciam desde crianças. “Para onde vai?”.
“Gosto de caminhar em Londres”, disse a Senhora Dalloway. “É realmente melhor do que caminhar no campo”.
Eles tinham acabado de chegar à cidade – infelizmente – para uma visita aos médicos. Outras pessoas vinham à cidade para ver exposições; ir à ópera; levar as filhas a passeio; os Whitbreads vinham para “uma visita aos médicos”. Eram sem conta as vezes em que Clarissa visitara Evelyn Whitbread em casas de saúde. Evelyn estava doente outra vez? Evelyn estava se sentindo um tanto indisposta, disse Hugh, sugerindo por um movimento qualquer de projeção ou de empolação do corpo – bem coberto, viril, extremamente belo, perfeitamente envolvido (ele estava sempre quase demasiadamente bem vestido, mas presumivelmente tinha que estar, com o pequeno cargo que tinha no Tribunal) – que sua esposa tinha algum mal interno, nada sério, algo que Clarissa, velha amiga que era, entenderia perfeitamente sem que ele precisasse entrar em detalhes.

25/01/2010
Outrora…
utra vida…
Oração – Rádio Tubá, Tubarão, SC – 1962.
Manifesto – XI Endipe, UERJ, Rio – 2000.
[Clique com o botão direito e escolha "salvar como..." ou coisa parecida. Escute com o seu player.].

07/12/2009
Um livro de horas. Para todas as horas. Pra ler de dia e de noite. No chão da sala ou à beira da praia. Pra quando não puder mais de alegria. Pelo amor que chega ou pelo que volta. Por um novo filho. Pelo fim de um trabalho bem feito. Pelo amor perfeito.
Pra ler quando for chegada a hora do desamparo. Pelo amor que foi embora. Pela amizade partida. Pelos amigos que partiram. Pelos sonhos que deram em nada. Pelas esperanças que secaram. Por ter sido pequeno. E não ter ousado. Pelo beijo que não foi roubado. Pela pena de não ter sido.
Para a hora grave da decisão. Vou ou fico? Pra Xangai ou pra Paris? Engenharia ou Filosofia? Ana ou Maria? Para a hora da reconciliação. De esquecer o mal que nos fizeram. E de pedir que esqueçam o nosso malfeito.
Para os tempos de cólera. Pela felicidade prometida mas que não veio. Pela utopia perdida. Pelos sonhos que nos roubaram. Pela boa vida que levam. E pela má vida que levamos. Pelas mentiras que nos pregam.
Para quando nos sentirmos gratos. Pelos sólidos e pelos líquidos que nos confortam. Pela embriaguez do rubro vinho. Ou da água cristalina. Pelos sons e pelas visões que nos transportam. E pelos gestos que nos tocam.
Para a longa hora da solidão. Quando o tempo é eternidade e o mundo um deserto. Para a doce hora do prazer. Do amor bem feito. Da espera e da agonia. E do desejo satisfeito.
Uma letra para cada hora. Um poema para cada letra. Vinte e quatro. Per-fei-tos. Festa espiritual. Manjar sonoro. Gala íntima. De-lí-ci-a.
[Da orelha do livro Alfabeto, de Paul Valéry, Autêntica Editora, já nas livrarias].

02/12/2009
Mais de um cantou o VINHO.
Inumeráveis são os poetas que elevaram até ao lirismo a sua embriaguez e estenderam aos deuses a taça de VINHO forte que sua alma esperava.
O tão precioso VINHO merece esses louvores. Mas que ingratidão e que grande erro dos que blasfemaram a ÁGUA!…
Divina lucidez, Rocha transparente, maravilhoso Agente da vida, ÁGUA universal, te ofertaria com gosto a homenagem de litanias infinitas.
Direi a ÁGUA tranquila, luxo supremo dos lugares, nos quais ela estende lençóis de calma absoluta, sobre cuja superfície pura todas as coisas refletidas parecem mais perfeitas que elas próprias. Ali toda a natureza se faz Narciso, e se ama…
A ÁGUA MOVENTE, que, por doçura e violência, por ressudações e por usura prodigiosamente lenta, por seu peso assim como por correntes e turbilhões desenfreados, por brumas e por chuvas, por regatos, por cascadas e cataratas, molda a rocha, pule o granito, desgasta o mármore, arredonda indefinidamente o seixo, embala e dispõe em bancos macios e em praias suaves toda a areia que ela criou. Ela trabalha e diversifica, esculpe e decora a figura sombria e brutal do solo duro.
A ÁGUA MULTIFORME habita as nuvens e cobre os abismos; instala-se como neve nos cimos expostos ao sol, de onde ela escorre pura; e seguindo caminhos que ela conhece, cega e segura de sua estranha certeza, desce invencivelmente em direção ao mar, sua maior extensão.
Por vezes, visível e clara, rápida ou lenta, ela escapa com um murmúrio de mistério que se transforma subitamente em bramido de torrente que ricocheteia para se fundir com o estrondo perpétuo de quedas esmagadoras e ofuscantes que carregam arco-íris no seu vapor.
Mas ela logo se esconde e sob a terra caminha, secreta e penetrante. Ela escruta as massas minerais nas quais se insinua e se abre as mais estranhas vias. Ela se busca na noite dura, juntando-se e reunindo-se a si própria; perfura, transuda, escava, dissolve, desagrega, age sem se perder no labirinto que ela cria; depois, ela se acalma nos lagos submersos que nutre com longas lágrimas que se solidificam em colunas de alabastro, catedrais tenebrosas de onde se derramam ribeiros infernais povoados por peixes cegos e moluscos mais velhos que o dilúvio.
Nessas estranhas aventuras quantas coisas a ÁGUA conheceu!… Mas sua maneira de conhecer é singular. Sua substância se faz memória; ela retém e a si assimila algum traço de tudo que roçou, banhou, envolveu: do calcário que escavou, das jazidas que lavou, das areias ricas que a filtraram. Quando surge à luz, está toda carregada das potências primitivas das rochas que atravessou. Arrasta com ela fiapos de átomos, elementos de energia pura, bolhas dos gases subterrâneos, e às vezes o calor íntimo da terra.
Ela surge enfim impregnada dos tesouros de seu curso, ofertada às precisões da Vida.
Como não venerar esse elemento essencial de toda VIDA? Quão poucos contudo concebem que a VIDA não é senão a ÁGUA organizada?
Considerem uma planta, admirem uma grande árvore, e vejam em espírito que ela não passa de um rio erguido que se derrama no ar do céu. A ÁGUA sobe pela ÁRVORE ao encontro da luz. A ÁGUA constrói, de alguns sais da terra, uma forma apaixonada da luz. Ela estica e estende em direção ao universo, com mãos leves, braços fluidos e possantes.
Onde a ÁGUA existe, o homem se fixa. O que de mais necessário que uma ninfa muito fresca? São a ninfa e a fonte que marcam o ponto sagrado no qual a Vida se estabelece e contempla ao seu redor.
É então que se saberá que existe uma embriaguez da ÁGUA. Beber!… Beber… Sabe-se que a sede verdadeira só é aplacada pela água pura. Há algo de autêntico no acordo entre o desejo verdadeiro do organismo e o líquido original. Ser alterado é devir outro: corromper-se. É preciso pois se desalterar, redevir, socorrer-se daquilo que tudo o que vive exige.
A própria linguagem está plena de louvores da ÁGUA. Dizemos que temos SEDE DE VERDADE. Falamos da TRANSPARÊNCIA de um discurso. Vertemos às vezes uma TORRENTE de palavras…
O próprio tempo extraiu do curso da ÁGUA pura a figura que ele nos pinta.
Adoro a ÁGUA.
[Oeuvres, I, La Pléiade, p. 202-204. Publicado pela primeira vez, em 1935, numa brochura produzida pela Fonte Perrier sob o título "Prefácio de Paul Valéry". ]

30/09/2009
Veio-me a idéia de que o que quero agora é saturar cada átomo. Eliminar todo excesso, todo peso morto, tudo que é supérfluo: propiciar o momento pleno; seja lá o que isso incluir. Digamos que o momento é uma combinação de pensamento; sensação; a voz do mar. O excesso, o peso morto vêm da inclusão de coisas que não pertencem ao momento; essa terrível tarefa narrativa do realista: ir do almoço ao jantar: é falsa, irreal, meramente convencional. Por que permitir que se introduza qualquer coisa na literatura que não seja poesia? Com isso quero dizer poesia saturada. Não é essa a minha queixa contra os romancistas? De que eles não selecionam nada? Os poetas chegam ao êxito ao simplificar: praticamente quase tudo é deixado de fora. Eu quero praticamente incluir tudo: mas saturar. É isso que quero fazer em The Moths [As mariposas, mais tarde, intitulado As ondas]. Deve incluir o nonsense, os fatos, a sordidez: mas tornados transparentes.
[A Writer's Diary. Nova York: Harvest].

25/08/2009
Parem os relógios, ao telefone nenhum ruído,
Com um osso ao cão, emudeçam-lhe o latido,
Calem-se os pianos e com rufares em surdina,
Desçam o ataúde, aos prantos sob a chuva fina.
Que os aviões voem em círculo neste céu de abril
Inscrevendo em pleno ar a mensagem Ele Partiu.
Enlacem com crepe as pombas brancas da praça.
Que a guarda traje negro em sinal de tal desgraça.
Ele era meu Oriente, meu Ocidente, Sul e Norte.
Era a alegria na minha desgraça e na minha sorte.
Era minha lua, minha noite, minha fala, meu piano;
Pra mim o amor era pra sempre: grande engano.
De que servem agora as estrelas? Apaguem todas elas.
Recolham a lua. Que o sol se derreta em pálidas velas.
Esvaziem o oceano e que as florestas virem deserto.
Pois de agora em diante nada mais vai dar certo.
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead.
Put crepe bows round the white necks of public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West.
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever; I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

05/08/2009
Pedimos apenas um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante que um pensamento que escapa de si próprio, idéias que fogem, que desaparecem mal são esboçadas, já roídas pelo olvido ou que se precipitam sobre outras que tampouco dominamos. São invariabilidades infinitas cuja desaparição e aparição coincidem. São velocidades infinitas que se confundem com a imobilidade do nada incolor e silencioso que elas percorrem, sem natureza nem pensamento. É o instante que não sabemos se é demasiado longo ou demasiado curto para o tempo. Recebemos golpes de chicote que batem como artérias. Perdemos sem parar nossas idéias. É por isso que queremos tanto nos apegar a opiniões fixas.
[...]
Num texto violentamente poético, Lawrence descreve o que a poesia faz: os homens não param de fabricar um guarda-sol que os abriga, sob o qual desenham um firmamento e escrevem suas convenções, suas opiniões; mas o poeta, o artista abre uma fenda no guarda-sol, ele rasga até o firmamento, para fazer passar um pouco do caos livre e ventoso e enquadrar numa luz brusca uma visão que aparece através da fenda, prímula de Wordsworth ou maçã de Cézanne, silhueta de Macbeth ou de Ahab. Então segue-se a multidão de imitadores que consertam o guarda-sol com um remendo que se assemelha vagamente à visão, e a multidão de glosadores que preenchem a fenda com opiniões: comunicadores. Sempre haverá necessidade de outros artistas para abrir outras fendas, fazer as destruições necessárias, talvez cada vez maiores, e restituir assim a seus predecessores a incomunicável novidade que não se sabia mais ver. Quer dizer que o artista bate-se menos contra o caos [...] do que contra os “clichês” da opinião. O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página em branco, mas a tela ou a página já estão tão cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos, que é preciso, primeiro, apagar, limpar, laminar, até mesmo retalhar para fazer passar uma corrente de ar saída do caos que nos traga a visão.
[Qu'est-ce que la philosphie?, Minuit, p. 191-2].

01/08/2009
A poesia, dizem, é uma questão de palavras. E é verdade, tanto quanto a pintura é uma questão de tinta e o afresco, uma questão de água e ocra. Mas isso está tão longe de ser toda a verdade que soa um tanto simplista quando dito secamente.
A poesia é uma questão de palavras. A poesia consiste em combinar palavras para fazê-las ondular e vibrar e colorir. A poesia é um jogo de imagens. A poesia é a iridescente sugestão de um idéia. A poesia é todas essas coisas e, contudo, é algo mais. [...]
A qualidade essencial da poesia consiste em que ela exige um esforço renovado da atenção, e que “descobre” um mundo novo no interior do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, vivem todos dentro de um caos estranho e permanentemente revolto. Chamamos cosmo ao caos ao qual nos acostumamos. Chamamos consciência – e mente, e também civilização - ao indizível caos interior de que somos compostos. Mas trata-se, em última instância, do caos, iluminado por visões, ou não iluminado por visões. Exatamente como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece.
Mas o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal tudo é caos, havendo apenas algumas poucas e recorrentes agitações e aparências em meio ao tumulto. E o animal fica feliz. Mas o homem não. O homem deve envolver-se em uma visão e construir uma casa que tenha uma forma evidente e que seja estável e fixa. No pavor que tem do caos, começa por levantar um guarda-chuva entre ele e o permanente redemoinho. Então, pinta o interior do guarda-chuva como um firmamento. Depois, anda à volta, vive, e morre sob seu guarda-chuva. Deixado em herança a seus descendentes, o guarda-chuva transforma-se em uma cúpula, uma abóbada, e os homens começam a sentir que algo está errado.
O homem ergue, entre ele e o selvagem caos, algum maravilhoso edifício de sua própria criação, e gradualmente torna-se pálido e rígido embaixo de seu pára-sol. Então ele se torna um poeta, um inimigo da convenção, e faz um furo no guarda-chuva; e oba!, o vislumbre do caos é uma visão, uma janela para o sol. Mas depois de um certo tempo, tendo se acostumado à visão, e não lhe agradando a genuína golfada de ar do caos, o homem do lugar-comum rascunha um simulacro da janela que se abre para o caos, e remenda o guarda-chuva com o remendo pintado do simulacro. Isto é, ele se acostumou à visão; ela faz parte da decoração de sua casa. De maneira que o guarda-chuva finalmente parece um amplo e brilhante firmamento, de vistas variadas. Mas, que pena!, é tudo simulacro, feito de inumeráveis remendos. Homero e Keats, cheios de anotações e acompanhados de um glossário.
Esta é a história da poesia em nosso tempo. Alguém vê Titãs no ar selvagem do caos, e o Titã torna-se uma parede entre as sucessivas gerações e o caos que elas deveriam ter herdado. O céu selvagem pôs-se em movimento e cantou. Até isso torna-se um grande guarda-chuva entre a humanidade e o céu de ar fresco; ele tornou-se, então, uma abóbada pintada, um afresco num teto abobadado, sob o qual os homens empalidecem e se tornam infelizes. Até que um outro poeta faça um buraco no amplo e tempestuoso caos.
Mas finalmente nosso teto não nos ilude mais. É gesso pintado, e nem todo o engenho de todas as épocas da humanidade conseguirá mais nos enganar. Dante ou Leonardo, Beethoven ou Whitman: oba!, pintaram no gesso de nossa abóbada. Como São Francisco pregando para os pássaros em Assis. Maravilhoso, como o ar e o espaço passarinheiro e o caos de muitas coisas – em parte porque o afresco desbotou. Mas ainda assim, ficamos felizes em sair daquela igreja, e entrar no caos natural.
Esta é a grave crise para a humanidade, quando temos que voltar ao caos. Enquanto o guarda-chuva servir, e o poeta fizer furos nele, e a massa de gente puder ser gradualmente educada para a visão no furo: o que significa que eles o remendam com um remendo que se parece com a visão no furo: enquanto esse processo puder continuar, e a humanidade puder ser educada, e assim encaixada, a civilização continuará mais ou menos feliz, completando sua própria e pintada prisão. Isso chama-se completar a consciência.
A alegria que os homens tiveram quando Wordsworth, por exemplo, fez um furo e viu uma prímula! Até então, os homens tinha visto uma prímula apenas obscuramente, na sombra do guarda-chuva. Eles a viram por meio de Wordsworth no pleno brilho do caos. Desde então, gradualmente, acabamos por ver na primavera nada mais do que prímulas. O que significa que remendamos o furo.
E a grande alegria quando Shakespeare fez um grande rasgo e viu o homem emocional e desejoso ao desabrigo, no caos, para além da idéia convencional e do guarda-chuva pintado das imagens morais e dos rígidos paladinos, que foram instituídos na Idade Média. Mas agora, que pena!, o teto de nossa abóbada está simplesmente todo pintado de Hamlets e Macbeths, as paredes laterais também, e a ordem está fixada e completa. O homem não pode ser absolutamente diferente dessa imagem. O caos fica inteiramente do lado de fora.
O guarda-chuva ficou tão grande, os remendos e o gesso estão tão rígidos e duros que ele não pode ser mais furado. Se fosse furado, a abertura não seria mais uma visão, mas apenas uma afronta. Deveríamos borrá-lo todo de uma vez, para combinar com o resto.
Assim, o guarda-chuva torna-se absoluto. E assim o desejo do caos torna-se nostalgia. E isso continuará até que algum vento terrível parta o guarda-chuva em tiras, e destine a maior parte da humanidade ao esquecimento. O resto gelará em meio ao caos. Pois o caos está sempre ali, e sempre estará, não importa como armemos guarda-chuvas de visões.
E que dizer dos poetas, então, nesse intervalo? Eles revelam o desejo interior da humanidade. O que eles revelam? Eles mostram o desejo de caos, e o medo do caos. O desejo de caos é o sopro de sua poesia. O medo do caos está em seu desfile de formas e técnica. A poesia é feita de palavras, dizem eles. Assim, eles sopram bolhas de som e imagem, que logo explodem com o sopro do desejo de caos de que estão plenos. Mas os poetastros podem fazer reluzentes bolhas para a árvore de Natal, que nunca explodem, porque não existe qualquer sopro de poesia nelas, mas elas ficam lá até que as derrubemos.
[Selected Critical Writings, p. 234].

31/07/2009